Review: SAGA: Dark Age Skirmishes

Saga
SAGA – Livro de Regras

Bem, vamos começar os trabalhos de 2013!

Começando o ano, eu encontrei um wargame novo bastante interessante, e quero compartilhar as minhas impressões com vocês. Trata-se do SAGA: Dark Age Skirmishes, um wargame histórico skirmsh (para batalhas de poucas miniaturas), que como o nome já diz, se passa na Idade das Trevas.

Bem, pra começo de conversa, o termo “Dark Age” não é lá muito correto, historicamente falando, especialmente quando usado para se descrever a idade Média como um todo. Mas atualmente ele tem sido usado de forma mais restrita, para descrever o espaço de tempo entre 500-1000 DC (DC sim, não me venham com essa bobagem de Era Comum), seguindo o vazio de poder deixado com a queda do Império Romano, até as Cruzadas. No caso do SAGA (e da comunidade de wargamers de forma geral), o nome Dark Ages não apenas posiciona o jogo no tempo, mas também no espaço – SAGA é anglo-cêntrico, cobrindo a “Era dos Vikings”, quando os Vikings desceram de suas terras ano norte para pilhar a atual Inglaterra, Escócia e Irlanda.

Starter Set dos Vikings

A primeira coisa que eu percebi sobre o livro (um belíssimo livro, devo dizer), é que ele não é muito claro sobre a época em que o jogo se passa – ele começa descrevendo como a Era dos Vikings começou em 793 DC, terminando em 1066 DC, com a conquista da Inglaterra pelos Normandos, que marca o início da Era Normanda. Isso gera alguma confusão (especialmente para um não-europeu, ou um não-inglês, como nós), já que o livro fala também sobre os Normandos, que trata-se de um povo formado por um amálgama de conquistadores Vikings com os Francos do continente. Apesar de eu gostar muito de história e sendo fã da Idade Média, tendo estudado muito sobre as Cruzadas, devo confessar que não sei muito sobre a história da Inglaterra, então tenham um pouco de paciência comigo…

De qualquer forma, isso sendo uma falha do livro, ou apenas culpa do meu parco conhecimento, vamos seguir adiante com este review. O livro começa com um capítulo chamado The Age of the Vikings, que ocupa apenas uma página, falando sobre as primeiras incrusões Vikings na Inglaterra, e termina falando da Batalha de Hastings e do início da Era Normanda. Isso mostra claramente que o livro é direcionado para um público com algum conhecimento prévio da história inglesa, ou cidadãos ingleses (afinal, a maior parte da comunidade mundial de wargaming está na Inglaterra). Sendo brasileiro, não posso dizer com certeza quanto disso é tido como conhecimento comum para o povo do resto da Europa, então acabo por pensar que este capítulo deixa um tanto a desejar, já que este jogo supostamente deve cobrir apenas este período da história, logo mais informações seria algo bem-vindo – ou talvez eu tenha ficado mal-acostumado ccom os suplementos de Warhammer Ancient Battles e do GURPS RPG 🙂

Depois disso, há uma descrição geral do jogo, com os capítulos obrigatórios “O Que é SAGA?”, “O Que Você Precisa Para Jogar”, terminologia e objetivo do jogo. Devo dizer que é aqui que o livro começa a mostrar o seu melhor, com textos claros, curtos e concisos. Aqui também começamos a ver o que faz do SAGA um jogo especial e original, comparado aos outros wargames históricos disponíveis atualmente no mercado: SAGA, apesar de poder ser jogado utilizando uma fita métrica, utiliza apenas 4 “bandas” de movimento e alcance. São elas: Very Short (VS, Muito Curto, equivalente à 2″, ou 5cm), Short (S, Curto, equivalente à 4″, ou 10cm), Medium (M, Médio, que equivale à 6″, ou 15cm) e Long (L, Longo, que equivale à 12″, ou 30cm), e o jogo se prende à estas medidas para tudo, como a distância entre miniaturas para a coerência da unidade, que é VS, enquanto flechas tem um alcance L, por exemplo. Isso mantém tudo simples e elegante.

Battleboard de SAGA
Battleboard de SAGA

Mas a verdadeira inovação não está no método de medição, mas sim na mecânica principal do jogo, chamada de Dados SAGA. Cada exército apresentado no livro (são quatro, falaremos deles adiante) tem uma planilha chamada de “battleboard”, que é uma página com três colunas de caixas, onde estão descritas as habilidades exclusivas daquele exército. Cada habilidade requer um certo dado (ou combinação de dados) para ser ativada. É aí que entram os Dados SAGA .

Dados SAGA

Dados SAGA Galeses
Dados SAGA Galeses

Além do battleboard, cada exército conta com um kit exclusivo de dados de seis lados, com 3 símbolos diferentes em suas faces ao invés de números. Em cada turno, o jogador rola um número de Dados SAGA igual ao número de unidades que ele tem na mesa (até um máximo de 6 dados). Então ele deve alocar estes dados às caixas de seu battleboard, para poder realizar ações naquele turno. No battleboard, a primeira coluna de habilidades pode ser usada quantas vezes no turno o jogador quiser, e é lá que estão as caixas de ativação das unidades.

Geralmente as unidades mais bem treinadas podem ser ativadas por qualquer Dado SAGA, enquanto as unidade com menos treinamento (como os “levies” – agricultores conscritos) requerem dados mais específicos – já que eles são menos treinados, é mais difícil fazê-los seguir ordens.

Starter Set dos Normandos
Starter Set dos Normandos

As habilidades das outras duas colunas descrevem certas ações especiais que o seu exército pode executar, no seu turno ou no do oponente (o jogo é “IGOUGO”, como o 40k). Estas ações podem melhorar o seu ataque ou dificultar os ataques do seu oponente contra você. Estas habilidades variam bastante entre os diferentes exércitos, tornando cada um extremamente único. Várias destas habilidade podem ser usadas em conjunto, formando combos devastadores, fazendo do gerenciamento dos seus Dados SAGA uma das principais estratégias do jogo. Apesar de à primeira vista parecer um jogo muito mais baseado em sorte do que em estratégia, isso simplesmente não é verdade – você pode manter os dados não utilizados no seu battleboard entre os turnos, na esperança de conseguir rolagens melhores no próximo turno para complementar a sua seleção, permitindo que você faça o melhor uso de suas forças. Como é dito várias vezes no livro, planejamento é essencial.

Outra coisa legal é que você consegue jogar SAGA mesmo sem comprar os seus exclusivos Dados SAGA. No fim do livro há uma tabela que pode ser utilizada em conjunto com os dados convencionais para simular os Dados SAGA.

Montando Seu Exército

Montar o seu exército de SAGA é algo bem simples, não sendo necessário nenhum software específico ou matemáticas complicadas. O jogo utiliza um sistema simples de pontos, com as unidades agrupadas por qualidade. Existem quatro tipos de unidades no exército:

– Hearthguard: estas são as tropas de elite do seu exército, geralmente formada pelos guerreiros mais bem treinados e pelas pessoas de confiança do seu Warlord. Um grupo de 4 miniaturas de hearthguard custa 1 ponto;
– Warriors: estes são os soldados comuns do seu exército. Um grupo de 8 miniaturas de warriors custa 1 ponto;
– Levies: estes são os agricultores e fazendeiros recrutados para engrossar suas fileiras. À eles falta treinamento, mas eles podem lutar com armas de alcance, como arcos, fundas e lanças de arremesso. Um grupo de 12 levies custa 1 ponto. Uma unidade de levies não contribui com um Dado SAGA.
– Warlord: este é o general do seu exército – se ele morrer, a batalha está perdida! Ele vem de graça com o seu exército, à menos que você prefira substituí-lo por algum Herói da Era Viking. O Warlord adiciona 2 Dados SAGA ao invés de apenas 1.

Um exército de SAGA (chamado de warband) tem geralmente o valor de 6 pontos, com exércitos de iniciantes começando com 4 pontos de miniaturas. As unidade do jogo podem ter de 4 a 12 miniaturas, enquanto o Warlord é sempre um personagem independente, não podendo se juntar à nenhuma outra unidade. Apesar do livro sugerir um limite de 6 pontos, ele mesmo assim apresenta regras para se jogar com forças de até 12 pontos de cada lado – afinal, o público de wargames históricos adora batalhas enormes, e SAGA não desaponta, mesmo sendo apenas um jogo de skirmish 😉

Jarl Sigvaldi
Jarl Sigvaldi

Você também pode adicionar á sua força Swords For Hire, que são algumas unidades especiais que podem ser utilizadas por qualquer exército, como mercenários. O livro só apresenta Jarl Sigvaldi e os Jomvikings, uma unidade de 4 miniaturas.

O Jogo

O jogo em si é bem simples, no que se trata de movimento e resolução de combate. Toda infantaria tem um fator de movimento M, enquanto cavalaria movimenta-se num fator L. O combate corpo-à-corpo não é muito diferente do 40K, mas é mais simples e elegante, logo não vou entrar em muitos detalhes aqui. É importante ressaltar que não estou comparando o SAGA ao Warhammer Fantasy Battles (ou Warhammer Ancient Battles) pois este é um jogo que utiliza bases redondas, onde as unidades devem se manter em coerência, como em 40K.

O jogo também é baseado em cenários. O livro apresenta sete cenários diferentes, com outros mais sendo lançados em suplementos em no fórum oficial do jogo.

Fadiga

Outra das mecânicas exclusivas deste jogo se chama Fatigue (Fadiga). Quando uma unidade é ativada mais de uma vez por turno, ou se mantém em um combate prolongado, ou até sob outras circustâncias específicas, ela pode acumular marcadores de Fadiga. Seus marcadores de Fadiga podem ser gastos pelos seu oponente (!) para tornar mais difícil qualquer ação realizada por aquela unidade, como tornar mais difícil para uma unidade inimiga de arqueiros acertar a sua infantaria, por exemplo. Se uma unidade acumular mais Fadiga do que lhe é permitido, ela fica Exausta, e não pode fazer mais nada naquele turno além de descansar. Você também pode se livrar dos seus marcadores de Fadiga gastando ações para fazer a sua unidade descansar.

Algumas habilidades podem adicionar Fadiga ao seu oponente, ou remover Fadiga das suas unidades. Está vendo? Planejamento é importante!

As Facções

Quatro facções são apresentadas no livro: os Vikings, os Anglo-Dinamarqueses, os Normandos e os Galeses.

– Os Vikings lutam com espadas e machados, geralmente á pé, e seus levies usam arcos e fundas.
– Os Anglo-Dinamarqueses (do Danelaw, parte inglesa dominada pela Dinamarca) luta com os famosos machados dinamarqueses (machados de 2 mãos).
– Os Normandos, como poderíamos imaginar, tem acesso á cavalos, logo o Warlord, Hearthguard os seus Warriors podem usar montarias, que melhora o seu movimento, mas os torna mais vulneráveis à armas de alcance. Além disso, seus warriors também podem usar bestas.
– Os Galeses, que também tem acesso à cavalos, e seus Warlords, Hearthguards e Warriors podem utilizar javelins.

Como você pode ver, apesar do livro não cobrir todas as facções possíveis do período, ele ainda apresenta uma boa variedade de jogabilidade.

Os Suplementos

Até agora SAGA conta com 2 suplementos:

Northern Fury
Northern Fury

Northern Fury, que como o nome já diz, tem como foco principal os povos do norte. O livro apresenta quatro novas facções. São elas:

– Os Anglo-Saxões, que usam os mesmos Dados SAGA que os Anglo-Dinamarqueses. Eles tem acesso à cavalos, e seus levies tem a opção de serem armados com lanças e escudos ao invés de fundas e arcos, se você preferir.
– Os Bretões, que usam os mesmos Dados SAGA que os Normandos. Eles também tem seu forte na montaria assim como os Normandos, mas todas as suas unidades de montaria tem acesso à javelins, preferindo o combate á distância ao invés de dar carga ao inimigo.
– Os Jomsvikings são uma sub-facção Viking, e eles tem uma regra exclusiva de “Wrath” (Fúria), que é um medidor usando em algumas de suas habilidade especiais – um tipo de regra completamente nova no jogo. Como você poderia esperar, eles usam os mesmos Dados SAGA Dice que os Vikings.
– Os Escoceses são a única facção do livro que tem o seu próprio kit de Dados SAGA. Os seus Warlords e Hearthguards podem usar cavalos, e a maioria do exército é composta por lanceiros.

O livro também conta com um novo cenário, chamado Wooden Oaths.

The Raven's Shadow
The Raven’s Shadow

The Raven’s Shadow é o segundo suplemento, tendo como foco principal a Irlanda. Eu não tenho este livro, então aqui vai apenas a lista de facções presentes nele: Irlandeses, Norse-Gaels (Hiberno-Nórdicos), Francos (que podem ser Merovíngios, Carolíngios ou Capetíngios, cada um com suas próprias regras especiais) e os Galeses de Strathclyde.

Startet Set dos Irlandeses
Startet Set dos Irlandeses

Mas há mais material sobre SAGA além deste suplementos. Três outra facções (duas delas oficiais) também já foram apresentadas:

– Os Árabes: uma facção não-oficial criada por Martin Gibbins, o autor da segunda edição do Warhammer Ancient Battles, que foi publicada na edição de número 300 da revista Wargames Illustrated.
– Os Bizantinos: uma facção oficial, criada pelo autor do SAGA, Alex Buchel e publicada na edição nº 301 da revista Wargames Illustrated.
– Os Skraelings: outra facção oficial, cujas regras vem junto com o seu Starter Set, que pode ser adquirido na Gripping Beast.

Apesar dos Árabes e Bizantinos não realmente se encaixarem na Idade das Trevas inglesa, eles são do mesmo período. Pode-se dizer também que a Guarda Varangiana é razão mais do que suficiente para se adicionar os Bizantinos ao jogo. Os Skraelings são os índios da Idade das Trevas no Novo Mundo, descritos nas Sagas Vikings.

Starter Set dos Skraelings
Starter Set dos Skraelings

A Gripping Beast também vende pacotes de unidades Sword For Hire, que vem acompanhadas de um card contendo as suas regras especiais. Até o momento, as unidades disponíveis são: Flemish Mercenaries, Egil e Gall-Gaedhill.

É importante dizer que, apesar do SAGA ser uma criação do Studio Tomahawk, ele é publicado pela Gripping Beast, uma fabricante famosa e renomada de miniaturas históricas. Eles vendem inclusive Starter Sets para todas as facções lançadas até agora (oficiais ou não), e pacotes com 1 ponto de miniaturas, e miniaturas de vários dos Heróis da Era Viking estão disponíveis também.

O Futuro

O Studio Tomahawk não faz segredo sobre o futuro do jogo. Eles não pretendem manter o SAGA restrito à Idade das Trevas inglesa, e já há certa especulação sobre o jogo se estender à outros períodos históricos. Já foi dito que em 2013 deveremos ver um suplemento sobre as Cruzadas (algo muito bem-vindo, já que nenhum outro wargame cobriu este período em detalhe até agora), e há algumas pistas que apontam que deveremos ver o Japão Feudal e o Império Romano em algum momento no futuro.

Outro aspecto bastante positivo, especialmente no mercado de wargames históricos, é o quão aberto o Studio Tomahawk tem sido em relação ao material criado por fãs, fornecendo battleboards em branco para download e encorajando a discussão de todo o tipo de variação do SAGA, incluindo Napoleônicos e Ficção Científica – considerando a qualidade do sistema do jogo, não há razão para que ele premaneça confinado á apenas um período histórico, ou até seja usado apenas para jogos históricos.

Conclusão

SAGA é um jogo fantástico! É o perfeito jogo de entrada para apresentar o hobby dos wargames à novos jogadores, assim como introduzir wargames históricos à jogadores veteranos. O jogo é pequeno, variando entre 17 a 73 miniaturas de cada lado, e miniaturas históricas são geralmente mais baratas, fazendo deste um jogo bastante acessível.

O sistema, sendo simples e elegante, mantém a matemática e controle de fichas no mínimo necessário, de modo que você sequer precisa de uma lista de exército. Apesar da maioria das unidades funcionarem da mesma forma em todos os exércitos, o jogo está longe de ser simplista devido aos uso dos Dados SAGA, que adicionam uma camada de estratégia e variedade entre os exércitos, mantendo o jogo sempre novo. Bem, SAGA não é realmente um jogo para wargamers históricos que buscam uma simulação fiel de um campo de batalha, mas acredito que tenha o equilíbrio perfeito entre as mecânicas clássicas dos wargames de mesa e a abstração dos jogos de tabuleiro, mantendo-se simples mas sem perder muita profundidade.

Post escrito por um dos fundadores do CAW:

960

Um comentário em “Review: SAGA: Dark Age Skirmishes

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